Eram apenas três da manhã quando Isadora acordou. Olhou para os lados, e com dificuldade de ver através da escuridão, percebeu que além de suas duas colegas de quarto havia mais três meninas dormindo. Logo se lembrou que estava num hotel de Petrópolis, onde havia chegado ao anoitecer do dia anterior com todo o grupo da escola.
Não estava cansada, mas fechou os olhos e tentou dormir novamente. Não conseguiu. Estava com sensações que pareciam não ser ruins, apenas não conseguia identificá-las corretamente. Pensou na mãe e no irmão que estavam longe dali, que só os veria meses depois, quando suas férias finalmente chegassem. Pensou no cachorro, no gato no periquito e no papagaio. Pensou em todos os amigos, até nas suas amigas que estavam ali no quarto com ela. Pensou em todas aquelas pessoas que amava, e também naquelas que um dia fizeram parte de sua vida como se nunca mais fosse vê-las. Pensou em todos os momentos mais importantes que viveu. Sentiu uma saudade inexplicavelmente imensa. Esse sentimento foi crescendo. Doía por dentro, corroia todos os seus ossos. Uma lágrima brotou-lhe nos olhos, mas não caiu. Então Isadora se lembrou de sorrir.
Poucos segundos depois, uma pequena luz na escuridão chamava sua atenção. Disposta a ver, levantou-se. Em pé, não sentia o peso do seu corpo, parecia tão leve. No primeiro passo, encantou-se ao sentir que estava flutuando. Achou graça, pois nunca sentira isso antes. Imaginando-se numa de suas antigas apresentações de ballet, dançou lentamente pelo ar, fazendo piruetas, fouettés, developpés, pas de chats, pas de bourrès, pas de valse e tanlevés até chegar na porta da sacada, onde a luz a levava.
Com medo de acordar as meninas, abriu vagarosamente a porta. Sentiu um ventinho frio bater e arrepiou-se dos pés até o último fio de cabelo, mas passou tão rápido, que nem percebeu o frio da madrugada.
O céu estava extremamente lindo, todo estrelado. A menina mal conseguia lembrar a última vez que viu algo tão impressionante. A luz da lua iluminava a paisagem ao redor, e apesar da névoa, Isadora podia ver as árvores enormes e até alguns pequenos animais que nunca imaginaria enxergar com tanta facilidade.
Um pequeno casal de esquilos que dormia na copa de uma árvore lhe chamou atenção. Pulou a sacada sem mesmo lembrar de que estava hospedada no terceiro andar e se aproximou dos meigos animaizinhos. Observou-os com carinho e sorriu. Desviando o olhar para a direita, avistou primaveras de todas as cores. O vento que cantava, fazia as flores dançarem num ritmo gracioso. A garota acompanhou-as chegando mais perto. Era tudo tão lindo!
E para completar o cenário, o cheiro úmido da terra se misturava com o perfume dos jasmins. Maravilhada, Isadora observava cada mínimo detalhe. Sorria à toa, um sorriso calmo, tranqüilo e acolhedor. Cantarolava passeando entre lindas flores que jamais vira.
O sol começava nascer e o céu a clarear. Os raios de sol iluminavam o rosto claro e meigo da menina, clareavam - lhe ainda mais os olhos verdes e fazia cada fio dos seus longos e cacheados cabelos castanhos brilharem intensamente.
Sem se preocupar com o tempo que passava, Isadora dançava no ar sempre em direção ao horizonte. Como se nada no mundo pudesse contê-la. E assim, se foi para todo o sempre.